Heitor Rangel - Produtor da Publiart Studio, especializado em bandas de rock independentes!!

 

CLub RoCk (Janice assinante CLub RoCk Recife)
Ser produtor em nosso País, com certeza é um desafio, qual deles é o maior?

 

R: Todo dia tem uma provação, uma barreira. Mas o maior desafio é fazer uma banda que não dispõe de nenhuma divulgação em rádio e televisão ser ouvida, prestigiada e ter um público fiel, que acompanha os shows, visita o blog, cria comunidade no orkut e põe o som na internet para que outras pessoas possam curtir e compartilhar as mesmas sensações.   

CLub RoCk (Marcos Vilares - programa Free Rock de Itapecerica da Serra)

Qual a coisa mais importante que você procura em uma banda?

 

R: Uma ‘cozinha’ em sintonia, onde tenha baterista com pegada forte e um baixista fazendo a ligação entre o ritmo e a harmonia com precisão. É impossível fazer evoluir os arranjos sem uma base rítmica forte. Pense em alguns nomes de bandas que você goste e verá que todas elas tem uma “dupla de zaga” coesa, não importa se for o Rush ou o Ramones.

 

CLub RoCk (Moya - Assinante Campinas SP)

Que tipo de rock, você curte mais? Quais suas bandas preferidas?

 

R: Curto demais do rock feito entre 60 e 70, época do Grand Funk, Cream, Jethro Tull, T.Rex, The Who, Zappa, enfim...mas gosto muito de coisas mais recentes também, como DT, Super Furry Animals, Vanden Plas, Evergrey, Incubus, Nevermore, Lemur Voice, Sigur Ròs, Rammstein, Dixie Dregs, Sevendust, Savatage, Godsmack, Jeff Buckey e Ani DiFranco 

 

CLub RoCk  França Matos - S. Paulo SP
Quais tipos de diferenciais você acha que consegue em suas produções?

 

R: Trabalho cada música individualmente, tanto num álbum como em uma demo expondo as possibilidades que minha intuição aponta com objetividade e clareza. Sempre há um modo de influir no arranjo e fazer com que as emoções da música sejam expressas melhor, são pequenos detalhes que fazem toda diferença . Por exemplo, se determinada música tem um riff de guitarra marcante, vou imaginar formas do baixo e da bateria valorizarem aquele riff, se o bloco harmônico é muito simples, mas bonito, pensarei em coloraturas diferentes na interpretação do vocalista. Se o grupo tem um percussionista e um baterista onde os dois tocam tudo que sabem ao mesmo tempo, vão acabar anulando a linguagem individual e o arranjo ficará confuso, então indicarei caminhos para que um toque na pausa do outro e criem uma levada consistente e compacta. Sou exigente com relação à performance, para que o músico não aparente ser uma cópia de outra pessoa e tenha confiança no seu talento. Se estiver produzindo um guitarrista com influências fortes de Yngwie Malmsteen, gravarei todos os takes dos solos criados, mas também o incentivarei a improvisar e descobrir sua personalidade musical, procurarei timbres que o diferenciem. Caso fosse um guitarrista ‘blueseiro’ que tocasse tudo em pentatônicas, indicaria uma articulação maior no fraseado e por aí vai. Se essa checagem não for feita, por melhor que seja a música e a execução, o álbum se torna cansativo e dispensável ao longo do tempo. As raízes musicais devem ser valorizadas e tenho consciência disso, mas é importante enunciar as qualidades do indivíduo, criando uma espécie de abismo entre aquilo que o influencia e o que ele é.  

 

CLub RoCk Míriam Santana - Banda Reizado RR - PB

Quais produtores são suas referências? Por quê?

 

 R: Sempre tenho ouvido os trabalhos antigos e atuais do  Rick Rubin, Bob Rock, Quincy jones, Brendan O´Brien, Brian Eno, Chico Neves, David Prater, Jack Endino, Steve Vai, George Martin e o “Mr.rock n´roll” Eddie Kramer, porque são criativos, ousados, músicos excepcionais e têm domínio da técnica de áudio, o que resulta em discos de qualidade absurda e que as pessoas se identificam por décadas. Ajudaram muita gente a ter uma carreira de sucesso e duradoura. Espero ter o mesmo êxito. 

 

CLub RoCk Marcos Hugo - Banda Lies - S. Paulo - Capital
Você é do tipo que deixa a banda mais solta ou gosta de impor mais as suas idéias?

R: Acredito em confiança e colaboração, o bom-senso diz que“se é preciso impor alguma coisa, é porque a idéia não é boa”,entretanto tenho uma responsabilidade muito grande com o resultado final e como a banda será apresentada ao público pelo álbum, então é natural que eu esteja atento à tudo. Sem dúvida que isso é positivo, significa que estamos no mesmo time, queremos que o trabalho saia perfeito, que seja objeto de orgulho para sempre, então o que fazemos é conversar e trabalhar com seriedade. Mas algo interessante que sempre acontece é que os músicos não se sentem seguros em realizar idéias que eu não esteja de acordo, querem que a palavra final seja minha porque vêem que estou pensando junto, envolvido integralmente com o todo e porque sou músico também. Me agrada imensamente depositem essa confiança em mim, faço o máximo para superar as expectativas. Essa sinergia inquebrantável que gerou  minha carreira de produtor.

 CLub RoCk Bruno Almeida (Assinante Club RoCk de Manaus)

Qual a grande diferença que têm entre as produções Nacionais e as Internacionais? Qual é a melhor?

R: As estrangeiras são melhores porque o brasileiro ainda é muito tímido para ousar idéias novas nas produções. Há músicos excelentes, muito criativos e engenheiros de som idem. Mas dentro do estúdio pouca gente põe aquela “vibe” do show. Você ouve a banda ao vivo a acha muito mais interessante do que no disco. O álbum fica soando todo “certinho”, parece um jingle, mas não têm o mesmo apelo das apresentações. A mentalidade dos produtores e diretores artísticos ainda é muito conservadora e acaba transmitindo isso pros músicos. Dá a sensação de que estão correndo atrás, ao invés de tentar andar em paralelo com os gringos. Parece que ninguém faz nada diferente se não tiver algum estrangeiro como referência. Só foram apostar em HC depois que os californianos já estavam em todas as paradas das rádios do mundo todo, quando aqui no Brasil sempre teve representantes do gênero! Isso leva a crer que todo conceito musical diferente é descartado como se o público não fosse capaz entender, portanto sem apelo comercial algum. O White Stripes é uma banda muito reconhecida e elogiada pela imprensa no mundo todo, vende muito e só toca para público grande. Mas se fosse no Brasil, seria mais uma banda procurando baixista.

CLub RoCk Maurício Delforth Assinante Club RoCk de Salvador BA
Qual diferencial em suas produções?

R: Sempre busco uma identidade para a sonoridade da banda. Tenho milhões de referências, mas não deixo nada me inspirar mais do que a própria personalidade musical dos caras. Uma coisa importante que reflete no resultado é que eu normalmente fico muito amigo de todo mundo, então além do respeito e da confiança, o pessoal se sente estimulado à tocar aquelas idéias individuais que não eram reveladas nem nos ensaios e eu não faço por menos e meto o bedelho também! Muitas vezes sinto falta de um riff de guitarra que acabo eu mesmo compondo e passando pro guitarrista. E se você pensa que o pessoal se incomoda, muito pelo contrário, ego de guitarrista precisa é ser trabalhado. Eu já sou o quinto elemento de muita banda por aí(rs)!

 

CLub RoCk Renata Osbourne Assinante Club RoCk de Goiania - GO
Quais os grandes avanços que teve nas produções em comparação as décadas anteriores?

R: Vejo dois grandes avanços: o primeiro foi na tecnologia para música. As ferramentas são inúmeras, excelentes opções e tudo com uma muita qualidade e praticidade. O outro avanço foi nos conceitos de produção que ajudaram a desmistificar muitos preconceitos que ecoavam nas rodas de músicos e técnicos de áudio sobre tecnologia digital, quando o que faltava era ciência no assunto. Hoje temos uma tendência que definitivamente é muito eficiente, que é mesclar o analógico e o digital. Instrumentos e microfones antigos(vintage) com processadores digitais, emuladores e afins. Tudo isso funciona muito bem, soa muito bem e barateou muito os custos das produções. Sem dúvida foram as duas grandes transformações que viabilizaram o surgimento do cenário musical independe.

 

CLub RoCk Assinante Club RoCk e guitarrista da banda Mosh Ville do Rio de Janeiro
Hoje a tecnologia copia os timbres antigos tipo valvulados, como se explica isso?

R: Copia não só timbres de amplificadores, como de microfones, pedais de efeito, ambientes, etc. Não sei te explicar o processo de registro para copiar os timbres, mas digo que são confiáveis e funcionam bem demais! As empresas que criaram os produtos originais supervisionam todo o processo de emulação e não só autorizam  com trabalham em conjunto para que o resultado seja o mais perfeito possível. 

 CLub RoCk Jamile (Metal Wave /Osasco - SP)
Você acha que vale a pena lançar um cd independente? Quais as vantagens e desvantagens desse tipo de produção?

R:  A única maneira de conseguir algum contrato com gravadora é tendo um trabalho independente. Hoje nenhuma gravadora está com verba suficiente para patrocinar as bandas que gostaria, então você tem que mostrar para eles na prática, que fechar contrato com vocês é um negócio vantajoso e que há profissionalismo na postura de vocês na divulgação do trabalho. Isso se faz produzindo o disco de forma independente. Disco completo mesmo, não cd-demo, cd de ensaio ao vivo. Tudo é analisado pelos empresários: o quanto você investiu, como e quanto você trabalha a divulgação do seu disco, o estilo musical também conta mas não é o mais importante para eles.  Não dá para esperar que uma grande gravadora dê atenção à uma banda que envia um cd gravado ao vivo num estúdio de ensaio com o nome das músicas escrita com caneta bic na embalagem. O conceito que eles têm de bandas com esse material é que eles têm 13 anos e estão na garagem incomodando os vizinhos. Ingenuidade e falta de grana não são considerados. Só se tem uma única chance na maioria das vezes.

Agora, se você não almeja um contrato e pretende seguir independente, faça-o com o mesmo apreço. A única desvantagem é que você mesmo terá que fazer sua assessoria de imprensa no início e correr atrás de tudo para que os shows aconteçam. No mais, a liberdade artística e a autonomia de reger o negócio da sua maneira, é que recompensa.  É viável fazer dessa forma.

CLub RoCk Diego da banda Hoje ou Nunca de Jiparana - ES
Qual tipo de rock você mais gosta de produzir,  e qual instrumento te dá mais prazer de timbrar, e trabalhar?

R: Eu gosto muito dessa arte e por isso não tenho um estilo que goste mais. O que me motiva mais são as pessoas. Quando os caras são legais e rola interação, no processo tudo fica favorável para “resultados infalíveis”.

Sobre os instrumentos, a tríade guitarra-baixo-bateria adoro timbrar. Sempre há surpresas. Mas o que me instiga muito são instrumentos acústicos em geral, principalmente coisas mais exóticas que não existem manuais de microfonação. Vai do meu bom-senso extrair uma boa captação.

 

 

CLub RoCk Té baixista da banda Wirelles de Embú - SP
Em geral quantas horas são necessárias para se produzir um cd de umas 12/13 faixas?
O que mais dá trabalho?

R: Depende muito da sua banda. Tem discos gravados com inacreditáveis 60 horas e outros que levam mais de 300 horas. São diversos fatores que contribuem para essa variação. Dentre elas o desempenho dos músicos na gravação e os recursos que são necessários para finalizar o disco. Tem estilos que precisam de muita edição e outros que você praticamente grava em pouquíssimos takes e a mixagem acaba sendo bem simples. 

 CLub RoCk Rogério rádio frenesi de BH MG

Fico feliz de através do Pedrão conhecer um jovem produtor que consegue fazer um trabalho tão bacana como o que você fez com a Máxima Culpa, ouvi algumas coisas no site da banda curti muito,  gostaria de saber o que você achou mais legal nesse trabalho?

R: Teve muitos aspectos. Gostei de tudo. No pessoal não tenho adjetivos para explicar como foi bom ter esses caras como amigos pra vida toda. Outro fator é exatamente a idade, como você citou. Eu estava com 21 anos quando começamos a produção do disco em 2003. Uma coisa excepcional na parte musical foi eles terem aceitado minha concepção de como o trabalho deveria ser. Todos os arranjos saíram modificados, mais elaborados e com vários timbres de guitarra que conseguimos usando apenas uma Gibson Standart e um matador Mesa/Boogie Rectifer. Um detalhe importante, é que as influências do Máxima Culpa são bandas clássicas e eu fugi dessa sonoridade um pouco e apostei em timbres mais modernos e linhas de guitarra que explorassem toda cultura guitarrística do Mamorra. Por isso os solos foram gravados no improviso e havia um cuidado especial para que cada nota significasse determinado trecho da música. Foi emocionante.

CLub RoCk Pedrão CLub RoCk/Máxima Culpa 
Vou repetir prá vc uma pergunta que sempre faço aos entrevistados
.
Muitos maus religiosos usam seu poder de persuação para roubar dinheiro de seus fiéis e enriquecerem cada vez mais.
Em nosso movimento de denúncias e questionamentos e em nossas músicas alertamos as pessoas para esse fato.
O que você acha disso? 

R: Infelizmente os bons religioso também lesam a população. Roubando dinheiro talvez não, mas com o puritanismo e a hipocrisia demente com certeza, sim. Por conta disso não temos prisão perpétua, pena de morte em casos de crimes hediondos, e o aborto pode se consumado em caso de estupro, mas no caso de um bebê sem cérebro, não. E quem se fode é a população em geral, que não pode blindar carro, não tem como pagar escola, e se a filha do camarada estiver grávida, vai abortar do mesmo jeito em clínicas clandestinas, sem nenhum responsável e nenhuma estrutura para assegurar a vida dela. Sem falar nas pesquisa com células tronco que deixaria com que muita gente com câncer, atrofia, derrames e outras mazelas, voltasse a ter uma vida normal, digna e sem seqüelas.

 Valeu pela entrevista  e felicidades pra você, que merece muito!!

 

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